1Objetivo
Padronizar a aplicação da fotobiomodulação (PBM)/laserterapia de baixa intensidade (LLLT) para prevenção e controle de sintomas decorrentes de radioterapia (RT) e quimioterapia (QT) em pacientes oncológicos, incluindo mucosite oral, radiodermatite, linfedema, xerostomia/disgeusia e neuropatia periférica induzida por quimioterapia (NPIQ).
2Equipamentos e Parâmetros Gerais
- Laser vermelho: 660 nm (± 10 nm), potência 100 mW.
- Laser infravermelho: 808 nm (± 10 nm), potência 100 mW.
- Em protocolos combinados, os dois comprimentos de onda podem ser emitidos simultaneamente para atingir cromóforos distintos e profundidades teciduais diferentes.
- Modo de emissão contínuo ou pulsado (<100 Hz); luz pulsada de baixa frequência pode ser superior para cicatrização/prevenção de lesão.
- Uso de óculos de proteção específicos para o comprimento de onda em todos os procedimentos (paciente e operador).
3Avaliação Pré-Aplicação
- Confirmar diagnóstico oncológico, modalidade de tratamento (RT, QT, RT+QT, TCTH) e fase do tratamento.
- Graduar a toxicidade presente pela escala apropriada (OMS para mucosite oral; RTOG/CTCAE para radiodermatite; perimetria para linfedema).
- Checar contraindicações: lesão suspeita de malignidade não tratada na área a irradiar diretamente (avaliar caso a caso com oncologista), fotossensibilidade medicamentosa ativa, gestação (área abdominal/pélvica), história de epilepsia fotossensível quando aplicável.
- Registrar localização exata, extensão da lesão/área e sintomas basais (dor, ardor, disfagia).
4Dosimetria por Condição
Joules vermelho, infravermelho e combinado.
| Condição / Fase | Laser Vermelho (660 nm) | Laser Infravermelho (808 nm) | Protocolo Combinado (660 + 808 nm) | Frequência | Ref. |
|---|---|---|---|---|---|
| Mucosite oral, prevenção (protocolo Heimlich et al.) | Intraoral: 22 pontos, 2 J/ponto (0,08 cm² de spot aproximado) | Extraoral: 2 pontos, 6 J/ponto | Orofaringe (fibra óptica 10,5 cm): 2 pontos, 2 J/ponto; aplicação combinada intraoral + extraoral + orofaríngea na mesma sessão | Diária, do início ao fim da QT/TCTH | [1] |
| Mucosite oral, prevenção (diretriz histórica MASCC/ISOO pré-2011) | 650 nm, 40 mW, 2 J/cm² por sítio (2 s/ponto); alternativa 632,8 nm em RT de cabeça e pescoço sem QT concomitante | Não especificado nesta diretriz | Não se aplica (protocolo monocromático) | Diária durante o condicionamento (HSCT) ou durante a RT | [3] |
| Mucosite oral, prevenção (regimen geral proposto por Zecha et al.) | 633–685 nm, 10–150 mW | 780–830 nm, 10–150 mW | 2–3 J/cm² na superfície tratada, não excedendo 6 J/cm² por ponto, para qualquer um dos dois comprimentos de onda | 2–3x/semana até diária | [4] |
| Mucosite oral, tratamento de lesão já estabelecida (grau ≥2) | 660 nm associado ao IV na mesma sessão | 808 nm associado ao vermelho na mesma sessão | Dose combinada podendo atingir até 22,2 J/cm² intraoral (protocolos de maior dose para lesão instalada); segurança documentada em série retrospectiva de 15 anos em TCTH | Diária até resolução clínica da lesão | [5] |
| Radiodermatite aguda, prevenção (protocolo clínico de 4 J/cm²) | Pode ser usado isoladamente a 660 nm, 4 J/cm² por campo | 808–905 nm, 4 J/cm² por campo (parâmetro mais estudado nesta indicação) | Diodo duplo (ex.: 905 + 808 nm) aplicado simultaneamente sobre toda a área do campo de RT | 2x/semana, da 1ª à última sessão de RT, aplicado 30–120 min antes | [6][10] |
| Radiodermatite com inflamação subcutânea estabelecida (posicionamento WALT) | Não é o comprimento de onda preferencial nesta indicação | 810 nm, irradiância 10–150 mW/cm², fluência equivalente a 1–2 Einstein por campo (fótons, não J/cm² convencional) | Associação vermelho/IV não padronizada para este estágio | 3–4x/semana por 5–6 semanas | [6] |
| Linfedema relacionado ao câncer | Sem dose padronizada publicada; usado sobre pele e trajetos linfáticos superficiais | Sem dose padronizada publicada; preferido para maior penetração em tecido subcutâneo fibrótico | Parâmetros heterogêneos entre serviços; dose deve ser adaptada à extensão da área e documentada por sessão | 2–3x/semana, ciclos de várias semanas | [7][8] |
| Xerostomia, disgeusia, trismo (RT de cabeça e pescoço) | Aplicação intraoral/extraoral sobre glândulas salivares e ATM, dose não padronizada na literatura atual | Preferido para glândulas mais profundas (parótida) pela maior penetração tecidual | Associação vermelho/IV extrapolada do protocolo de mucosite (2–3 J/cm², máximo 6 J/cm² por ponto), sem validação específica para esta indicação | 2–3x/semana | [4][9] |
| Neuropatia periférica induzida por quimioterapia (NPIQ), protocolo Teng et al. | 658 nm, 8 mW: dose inicial de 1 J/ponto, com escalonamento para 2 J/ponto conforme tolerância | Não utilizado neste protocolo específico | Não se aplica (laser monocromático de baixa potência) | 2x/semana por 6 semanas (12 sessões); 16 pontos em espaços interdigitais de mãos/pés + 10 pontos sobre dermátomos C6–T1 e L5–S1 bilaterais | [7] |
| NPIQ, protocolo NEUROLIGHT | Não utilizado neste protocolo | 808 nm associado ao laser de 905 nm (classe IV), potência de pico 1,1 W (808 nm) e 25 W (905 nm pulsado), densidade de potência 0,168 W/cm² | Fluência de 6 J/cm² (melhor resposta em dor) ou 8 J/cm², aplicada bilateralmente na superfície palmar e plantar (spot de 150 cm²) | 2x/semana por 3 semanas | [6][8][10] |
| NPIQ, protocolo Hsieh et al. | Não utilizado | GaAlAs 780 nm, 80 mW, 48 J/cm² | Não se aplica | 3x/semana por 4 semanas | [6] |
Limites de segurança. Para mucosite oral, o teto de 6 J/cm² por ponto foi estabelecido como margem de precaução, já que não há dados clínicos definindo um limite superior seguro; doses acima do ótimo podem ter efeito bifásico e reduzir o benefício terapêutico [4][9].
5Técnica de Aplicação
- Posicionar o paciente confortavelmente, com boa iluminação e acesso à área-alvo.
- Higienizar a pele ou mucosa antes da aplicação; remover secreções, biofilme ou crostas quando presentes.
- Na mucosite oral, aplicar o laser em pontos sucessivos sobre toda a superfície acometida (mucosa jugal, labial, ventre e dorso lingual, palato mole, orofaringe conforme protocolo), mantendo a ponteira em contato suave e perpendicular à superfície.
- Na radiodermatite, tratar toda a área do campo de irradiação (não apenas a lesão visível), respeitando o intervalo recomendado antes da sessão de RT.
- No linfedema, aplicar sobre trajetos linfáticos e áreas de fibrose, seguindo padrão de varredura ou pontos conforme o equipamento disponível.
- Documentar comprimento de onda, potência, tempo de exposição por ponto/área, dose total (J/cm²) e número de pontos tratados em cada sessão.
6Reavaliação e Critérios de Ajuste
- Reavaliar a cada sessão o grau de mucosite (escala OMS), da dermatite (RTOG/CTCAE) e a circunferência/volume do membro no linfedema.
- Suspender ou reduzir a dose em caso de piora aguda, sinais de infecção secundária ou sangramento ativo não controlado na área.
- Documentar resposta subjetiva (dor, capacidade de deglutição, prurido) e objetiva (fotografia padronizada, quando indicado) a cada 3–5 sessões.
- Manter comunicação com a equipe de oncologia/radioterapia para ajuste conforme evolução do tratamento sistêmico.
7Registro em Prontuário
- Diagnóstico oncológico e tratamento em curso (RT/QT/combinado), data da última sessão oncológica.
- Sítio e grau da toxicidade antes e após cada sessão de PBM.
- Parâmetros completos utilizados (comprimento de onda, potência, dose, número de pontos, tempo total).
- Intercorrências e conduta adotada.
- Assinatura e identificação do profissional responsável.
8Considerações Finais
- Os parâmetros descritos refletem protocolos publicados e posicionamentos de sociedades (MASCC/ISOO, WALT), mas ainda há heterogeneidade entre estudos quanto a comprimento de onda ideal, dose e frequência, sobretudo para radiodermatite, linfedema, xerostomia e neuropatia.
- A associação de comprimentos de onda vermelho e infravermelho é utilizada para atingir cromóforos e profundidades distintas, especialmente em protocolos de tratamento (não apenas prevenção) de mucosite estabelecida.
- A individualização por fototipo cutâneo é recomendada, já que a pigmentação da pele pode alterar a absorção de cromóforos e a resposta biológica à PBM.
RReferências
- Proposal of a prophylactic photobiomodulation protocol for chemotherapy-induced oral and oropharyngeal mucositis: a randomized clinical trial.
- Systematic review of photobiomodulation for the management of oral mucositis in cancer patients and clinical practice guidelines.
- Low-level laser therapy/photobiomodulation in the management of side effects of chemoradiation therapy in head and neck cancer: part 2: proposed applications and treatment protocols.
- Low level laser therapy/photobiomodulation in the management of side effects of chemoradiation therapy in head and neck cancer: part 1: mechanisms of action, dosimetric, and safety considerations.
- Evaluating the efficacy of photobiomodulation therapy in the management of chemotherapy-induced peripheral neuropathy: a pilot trial (NEUROLIGHT trial).
- Evaluating laser photobiomodulation for chemotherapy-induced peripheral neuropathy: a randomised phase II trial.
- Interventions for Preventing Oral Mucositis in People Receiving Cancer Treatment: Photobiomodulation.