1Objetivo
Padronizar a aplicação da Laserterapia de Baixa Intensidade (LLLT), também chamada de fotobiomodulação, como recurso terapêutico adjuvante no tratamento de feridas agudas e crônicas, visando estimular a cicatrização tecidual, reduzir o processo inflamatório e proporcionar analgesia, com segurança e reprodutibilidade técnica.
2Aplicação / Público-Alvo
Aplica-se a profissionais de saúde habilitados (enfermeiros, fisioterapeutas, médicos) que realizam terapia a laser em ambiente ambulatorial, hospitalar ou domiciliar, em pacientes portadores de feridas agudas, cirúrgicas ou crônicas (ex.: úlceras venosas, arteriais, por pressão, pé diabético, deiscências e queimaduras).
3Definições
- LLLT (Low-Level Laser Therapy). Também referida como fotobiomodulação, consiste na aplicação de luz laser de baixa potência (não térmica), nas faixas do espectro vermelho e infravermelho, com efeitos bioestimulantes, anti-inflamatórios e analgésicos.
- Laser Vermelho (660 nm). Comprimento de onda com maior absorção por citocromo c oxidase e flavoproteínas mitocondriais nas camadas epidérmica e dérmica superficial, favorecendo proliferação celular, síntese de ATP e reepitelização.
- Laser Infravermelho (808 nm). Maior capacidade de penetração tecidual (na ordem de 5–10 mm), atingindo fibroblastos, células endoteliais e estruturas vasculares em derme profunda e hipoderme, com maior indicação para efeito analgésico e anti-inflamatório.
4Fundamentação Técnica dos Parâmetros
| Parâmetro | Laser Vermelho | Laser Infravermelho |
|---|---|---|
| Comprimento de onda | 660 nm (±10 nm) | 808 nm (±10 nm) |
| Potência | 100 mW | 100 mW |
| Penetração tecidual | Superficial (epiderme/derme superficial) | Profunda (derme profunda/hipoderme) |
| Principal indicação clínica | Bioestimulação, reepitelização, cicatrização de bordas e leito superficial | Ação analgésica, anti-inflamatória, tecidos profundos |
A literatura de fotobiomodulação identifica o comprimento de onda de 660 nm como um dos mais estudados e eficazes para cicatrização de feridas, com doses de energia geralmente entre 1–6 J/cm² (mais comumente 3–5 J/cm²) associadas aos melhores desfechos clínicos. Comprimentos de onda na faixa do infravermelho próximo (808–810 nm) também demonstraram eficácia em promover fechamento de feridas e reepitelização, além de proporcionar efeito analgésico relevante em quadros de dor pós-operatória e inflamatória.
A dosimetria deve seguir a curva de Arndt-Schultz (efeito bifásico/hormese): doses insuficientes não produzem efeito biológico relevante, enquanto doses excessivas podem inibir, em vez de estimular, a proliferação celular. Em geral, recomenda-se não ultrapassar 10 J/cm² por ponto/sessão sobre tecido em reparação ativa, salvo protocolos específicos de tecido necrótico/hipertrófico. A dose deve ser ajustada conforme o tipo de tecido predominante no leito da ferida e a condição das bordas, conforme detalhado a seguir.
4.1 Dosimetria por Tipo de Tecido do Leito da Ferida e por Bordas
| Tecido / Condição | Laser Vermelho 660 nm | Laser Infravermelho 808 nm | Protocolo Combinado | Racional / Ref. |
|---|---|---|---|---|
| Tecido de granulação (leito vermelho vivo, vascularizado, fase proliferativa) | 4–6 J/cm² por ponto (máx. 6 J/cm²), técnica pontual espaçada 1 cm | 4–6 J/cm² por ponto, priorizando perfusão e síntese de colágeno em derme profunda | 3 J/cm² vermelho + 3 J/cm² infravermelho no mesmo ponto (dose total ≤ 6–8 J/cm²/sessão) | Doses nesta faixa associadas a maior neovascularização, fibroblastos e deposição de matriz extracelular; consistente com faixa de 3–5 J/cm² relatada como ótima e com fluência ideal de 5–10 J por ponto [3][10][15] |
| Esfacelo/fibrina (tecido amarelo, exsudativo, fase inflamatória prolongada) | 2–4 J/cm² por ponto (dose reduzida para não estimular carga bacteriana/exsudato) | 4–6 J/cm² por ponto (efeito anti-inflamatório e analgésico, redução de edema perilesional) | 2 J/cm² vermelho + 4 J/cm² infravermelho (priorizar infravermelho) | Associar sempre a desbridamento mecânico/enzimático prévio; infravermelho preferido pela penetração e ação anti-inflamatória em tecido mais espesso/exsudativo [4][13] |
| Tecido necrótico/escara seca ou aderida | Não irradiar diretamente até desbridamento | Não irradiar diretamente até desbridamento | Não recomendado sobre a necrose | Irradiar apenas bordas viáveis adjacentes, com dose reduzida (1–2 J/cm²), após avaliação médica; contraindicação relativa até remoção do tecido desvitalizado |
| Bordas da ferida / epitélio neoformado (borda rosada, fina, em migração) | 1–3 J/cm² por ponto (dose baixa, efeito hormético) | 2–4 J/cm² por ponto | 1–2 J/cm² vermelho + 2–3 J/cm² infravermelho, varredura ao longo de toda a borda (~1 cm de halo) | Doses mais baixas preservam o efeito estimulatório sem inibir migração/proliferação queratinocítica; wavelengths 630–660 nm favorecem proliferação de fibroblastos e reepitelização [11][14][16] |
| Pele perilesional íntegra (halo de ~1–2 cm ao redor da ferida) | 2–4 J/cm² | 4–6 J/cm² | 2 J/cm² vermelho + 4 J/cm² infravermelho | Objetivo analgésico e anti-inflamatório, sem necessidade de estímulo proliferativo direto |
| Feridas hiperexsudativas / infecção controlada em acompanhamento | 1–2 J/cm² (dose mínima efetiva) | 2–4 J/cm² | 1 J/cm² vermelho + 2 J/cm² infravermelho | Uso cauteloso; reavaliar resposta inflamatória a cada sessão; suspender se sinais de piora |
4.2 Ajustes por Etiologia da Ferida
Modificadores sobre a dosimetria por tecido:
- Úlcera de pé diabético. Revisões sistemáticas apontam 660 nm como comprimento de onda ideal, seguido de 890 nm, com faixa de dose de 1–6 J/cm² mais empregada nos ensaios clínicos; ensaio com laser infravermelho pulsado 808 nm domiciliar mostrou maior taxa de fechamento >90% (70% vs. 10%, p=0,006) [15].
- Úlcera por pressão (grau 2). Estudos utilizam predominantemente 1 J/cm² ou 4 J/cm², 3–5 sessões/semana por 4–6 semanas, com comprimentos de onda entre 650–820 nm [14].
- Úlceras venosas/arteriais e feridas crônicas de membros inferiores. Densidades de energia entre 2,4–126 J/cm² foram reportadas em revisão sistemática, com predomínio de doses entre 4–6 J/cm² [11].
5Indicações
- Feridas agudas (pós-cirúrgicas, traumáticas).
- Feridas crônicas: úlceras venosas, arteriais, por pressão, pé diabético.
- Deiscências de sutura.
- Queimaduras superficiais e de espessura parcial.
- Controle de dor e edema associados à ferida.
- Estímulo à angiogênese e formação de tecido de granulação.
6Contraindicações
- Irradiação direta sobre neoplasias ou lesões suspeitas de malignidade.
- Irradiação sobre a região tireoidiana em pacientes com disfunção tireoidiana não controlada.
- Gravidez: evitar aplicação sobre abdome e região lombossacra.
- Fotossensibilidade cutânea ou uso de fármacos fotossensibilizantes.
- Epilepsia fotossensível (cautela com dispositivos pulsáteis).
- Irradiação direta sobre os olhos.
- Áreas com infecção ativa não controlada, a critério da avaliação clínica (avaliar risco-benefício).
7Materiais Necessários
- Aparelho de laser terapêutico calibrado, com emissores vermelho (660 nm) e infravermelho (808 nm).
- Óculos de proteção específicos para o comprimento de onda utilizado (paciente e operador).
- Luvas de procedimento.
- Gaze estéril e solução salina (para limpeza prévia da ferida, se indicado).
- Régua ou dispositivo de medição da área da ferida.
- Ficha de registro/prontuário para dosimetria e evolução.
8Procedimento Técnico
- Higienização das mãos e paramentação com luvas de procedimento.
- Avaliação da ferida. Inspecionar leito, bordas, exsudato, sinais de infecção, área e profundidade. Fotografar/registrar, se protocolo institucional exigir.
- Limpeza da ferida conforme protocolo padrão de curativos, antes da aplicação do laser.
- Orientar o paciente e o operador a utilizarem óculos de proteção específicos para o comprimento de onda em uso.
- Seleção do comprimento de onda:
- Utilizar laser vermelho (660 nm, 100 mW) para estímulo de reepitelização e bioestimulação em leito e bordas superficiais da ferida.
- Utilizar laser infravermelho (808 nm, 100 mW) quando houver necessidade de ação analgésica, anti-inflamatória ou alcance de tecidos mais profundos (ex.: dor perilesional, edema, tecido subcutâneo comprometido).
- Ambos podem ser utilizados de forma combinada/sequencial na mesma sessão, conforme avaliação clínica e objetivo terapêutico.
- Técnica de aplicação. Técnica pontual (varredura) ou por varredura contínua sobre toda a extensão da lesão e bordas (aproximadamente 1 cm ao redor da ferida), mantendo a caneta do laser perpendicular à superfície e em contato suave ou a curta distância (conforme especificação do fabricante).
- Dosimetria. Identificar o(s) tecido(s) predominante(s) no leito (granulação, esfacelo/fibrina, necrose) e a condição das bordas, e aplicar a dose específica constante na tabela do item 4.1 (e o ajuste por etiologia do item 4.2, quando aplicável), calculando a densidade de energia (J/cm²) separadamente para cada área da ferida (leito e bordas) e para cada comprimento de onda utilizado (vermelho, infravermelho ou combinado), ajustando o tempo de exposição conforme a potência do equipamento (100 mW) e a área tratada. Quando a ferida apresentar mais de um tipo de tecido, tratar cada área com a dose correspondente ao seu tecido predominante, evitando aplicar dose de granulação sobre esfacelo/necrose ou vice-versa.
- Frequência. Sessões geralmente de 2 a 3 vezes por semana, ajustadas conforme evolução clínica e resposta cicatricial, com reavaliação periódica.
- Finalização. Realizar cobertura da ferida conforme protocolo de curativo vigente na instituição.
- Registro em prontuário. Comprimento de onda utilizado, potência, tempo de exposição, dose (J/cm²), área tratada, resposta clínica e intercorrências.
9Cuidados e Precauções
- Nunca direcionar o feixe de laser diretamente aos olhos do paciente ou do operador.
- Verificar calibração periódica do equipamento.
- Não aplicar sobre pele com sinais de necrose extensa sem avaliação prévia quanto à indicação.
- Monitorar sinais de melhora (redução de área, exsudato, dor) e de piora (sinais de infecção, deiscência) a cada sessão.
- Suspender a terapia e reavaliar em caso de agravamento do quadro local ou sistêmico.
10Critérios de Reavaliação
- Reavaliação clínica e fotográfica da ferida a cada 1 a 2 semanas, ou conforme protocolo institucional.
- Ajuste de parâmetros (comprimento de onda, dose, frequência) conforme fase de cicatrização (inflamatória, proliferativa, remodelação).
- Encaminhamento para avaliação médica especializada em caso de ausência de resposta após 4 semanas de tratamento ou sinais de complicação.
11Registros
Todas as sessões devem ser documentadas em prontuário/ficha específica, contendo: data, parâmetros utilizados (comprimento de onda, potência, dose, tempo, área tratada), avaliação da ferida antes e após o procedimento, intercorrências e assinatura do profissional responsável.
RReferências
- Effect of Red and Near-Infrared Wavelengths on Low-Level Laser (Light) Therapy-Induced Healing of Partial-Thickness Dermal Abrasion in Mice.
- Photobiomodulation With Pulsed and Continuous Wave Near-Infrared Laser (810 Nm, Al-Ga-As) Augments Dermal Wound Healing in Immunosuppressed Rats.
- Photobiomodulation therapy and low-level light therapy in wound healing.
- Qualitative Comparison of LED and LASER Effects on Cutaneous Wound Healing: A Systematic Review of Experimental Studies.
- Photobiomodulation in diabetic wound healing: A review of red and near-infrared wavelength applications.
- Clinical dosimetry and efficacy of LED photobiomodulation for chronic lower-limb wound healing: a systematic review of randomized trials.
- The validity and safety of multispectral light emitting diode (LED) treatment on grade 2 pressure ulcer: Double-blinded, randomized controlled clinical trial.